
Quando andava no 10º ano estávamos a ter uma estimulante conversa sobre sexo, quando o meu amigo L. se sai com a frase: «O que interessa é a cabeça, o resto é entulho». Ficámos a saber que o L. deve ter uma pila que se assemelha a um pequeno cogumelo do campo, mas mais do que isso ganhámos uma daquelas frases que se tornou uma espécie de lema. Durante muito tempo, cada vez que a ocasião se proporcionava lá vinha alguém que dizia: «O que interessa é a cabeça, o resto é entulho».
Ontem recebemos a nossa autocaravana. Orgulhosos, enchemos a caravana com umas 200 minis e muitos preservativos. Estávamos tão ansiosos que decidimos partir nessa mesma noite. Ás duas da manhã.
O nosso primeiro destino seria Tróia.
Ligámos o GPS e lá fomos a caminho, cantando alegremente Lady Gaga e olhando de soslaio (e com alguma gulodice) as casas de meninas da Nacional.
Eis-nos em Setúbal. Não sabemos porquê, mas o caralho do GPS mandou-nos mesmo para o centro de Setúbal. Para o meio de uma rua minúscula. Eu ainda pergunto ao L. «Achas que a autocaravana passa nesta rua?». E o L. responde «O que interessa é a cabeça, o resto é entulho». E ri-se. E eu rio-me. E o G. ri-se.
E nesse preciso momento enfiamos a autocaravana na varanda de uma casa.
Na verdade devíamos saber que esta viagem estava condenada desde o ínicio. Primeiro o D., que era suposto vir connosco, adoece 2 horas antes da partida. Na Nacional apanhamos dois papa-reformas que vão no máximo a 20 km/hora. A meio caminho, somos parados pela Polícia que nos informa que houve um derramamento de gasóleo e que a estrada está muito perigosa. Mas toldados pela visão de sevilhanas mamalhudas e sexo em autocaravana, ignorámos os sinais.
Mas voltando à minha empolgante narrativa: Eis-nos numa rua com muito mau aspecto, no meio de Setúbal, com a parte de cima da autocaravana totalmente enfiada numa varanda.
Em menos de meio minuto temos uma dezena de populares na rua. «Vamos levar uma sova», digo eu.
Não sei se foi a visão de três jovens garbosos, mas muito borrados de medo, se foi do rídiculo da situação, mas em menos de meia hora estava em cima da autocaravana, com a ajuda de dois ucranianos, a tentarmos tirar o gradeamento da varanda que estava enterrado na parte de cima da caravana. E passada outra meia hora, tínhamos as pessoas da rua a oferecerem-nos sacos de lixo para remendarmos o rombo e prosseguirmos viagem, porque «coitados dos rapazes, primeiro dia de férias e acontece-lhes isto!»
Mas decidimos voltar para Coimbra. Pela auto estrada desta vez. O vento dentro da caravana batia-nos na testa, a esferovite do contraplacado entrava-nos na garganta.
Parámos naquela que possivelmente era a estação de serviço mais cheia do País, com milhares de pessoas a apontarem e a gritarem: «Venham cá ver esta Caravana, eheheheh».
Dormimos duas horas. Os pés do L. viam-se pelo buraco.
E pronto. Foram as férias mais rápidas da minha vida.
